sábado, 10 de maio de 2014

Uma história


Conheci certa vez um rapaz (um homem). Não sei muito bem como descrevê-lo fisicamente, pois assim que olhei em seus olhos, negros como a noite, me vi encantada por um mundo que precisava conhecer. Quando ele falava comigo, sua voz saia como melodia. Cada palavra uma história, uma parte de algo tão incrível e grande que só ele conhecia. Não me fazia esquecer o mundo, do contrário, era a única pessoa que conseguia fazer-me vê-lo de outra forma, uma forma simplesmente maravilhosa.
Qualquer pessoa diria que ele era um homem comum, nada de extraordinário. No máximo, um contador de histórias. Mas eu via em seus olhos como aquelas histórias eram reais. Durante muitas noites ele ficava trancado em seu quarto com uma folha (muitas folhas), canetas ou lápis, qualquer coisa que pudesse escrever e pilhas de livros. Muitas vezes não bastavam as folhas e as paredes e cantos eram seus refúgios. Mas o mais incrível, as historias mais maravilhosas, ele ainda guardava para si.
Um dia, depois de muitos anos que o conheci, ele me convidou para entrar em seu quarto, aquele cantinho misterioso que guardava quase todos os seus segredos. Fiquei maravilhada com as coisas que encontrei ali, mas fiquei muito curiosa também pra conhecer seu mundo. Sem minha interferência ele logo se acostumou com minha presença e deixou-se levar.
Começou então a escrever uma história, a qual jamais vou esquecer. Eu o ouvi conta-la a mim e, quando as palavras saiam de sua boca, as linhas pelas paredes dançavam, formando-se naquilo que ele contava. Tudo ali formava uma melodia perfeita, simples, que me fazia desejar jamais partir. Ele pegou uma caneta preta, daquelas que marcam cds e começou a escrever nas paredes. Não sei se eram palavras ou desenhos. Era um guerreiro forte, destemido. Carregava uma armadura pesada e uma espada que tinha o peso de seu coração. Era jovem e puro ainda. Sonhador, conseguira derrotar muitos demônios, feras indomáveis, exércitos. Era venerado, temido e amado. Seus cabelos tinham uma tonalidade avermelhada, ruivo; seu corpo era desenhado por linhas, suas mãos fortes podiam manejar com destreza não só a espada, mas também arco e flecha.
Ele era sonhador também. Queria conhecer o mundo um dia, porém, conheceu uma mulher. Era ela linda, misteriosa. Possuia cabelos escuros como o breu, com ondas que lembravam-lhe o mar. Era serena como a lua, fria e escura como a noite, mas era viva. Tão viva como jamais havia ele visto outra criatura.
Ela o envolvia. Ah! Mulheres tem esse dom. Mas o envolvia de uma forma diferente. Não seduzia apenas seu corpo, seduzia seu coração. Ela não era como as outras mulheres, ela sorria sem medo de ser indiscreta demais e seu riso alegrava a todos. Ela olhava para o que queria com desejo e seu desejo queimava por dentro. Ela acordava todas as manhãs e saia pelos jardins balançando suas saias e cantarolando. À tarde ficava a observar em um silêncio quase sagrado a natureza.
Um dia, quando ele fora treinar o uso de sua espada, ela aproximou-se silenciosamente, carregando uma espada diferente e, como uma dançarina, entrou na frente dele, desafiando-o. Ela mostrou-se surpreendentemente habilidosa e a luta terminou em um empate, por que nenhum dos dois admitiria derrota, nem mostravam o menor sinal de cansaço. Ela girou a espada, deu as costas para ele e voltou para sua casa.
Naquela noite, passaram-se mil coisas em sua mente. Ela poderia ser tudo e ser nada, mas, quando do primeiro raio de sol, uma palavra passou por sua mente. Era algo comum, mas que simplesmente a definia. Era ela uma artista.
Quando ouvi essa palavra, pus-me a sonhar mil coisas, mas a luz do sol já entrava pela cortina, invadindo aquele lugar misterioso e tornando-o comum. De uma forma inacreditável a voz dele se calou, os traços pelo quarto cessaram. Tudo ali parecia comum e nada, absolutamente nada, indicava que eu ou ele estivéramos assistindo e ouvindo uma história tão apaixonante. Não haviam sinais daquele cavaleiro destemido ou de sua artista misteriosa. O único mistério que senti foram suas próximas palavras. Me pediu, numa voz estranha, que eu voltasse na próxima noite, assim a história continuaria, mas caberia a mim, até lá, manter aquele mundo em segredo e sonhar com ele.










Durante todo o dia eu tentava imaginar o que me esperava. A noite era fria e muito escura. Caminhei sem pressa até a casa dele e, ao bater na porta, ela foi aberta. Atrás, com um grande sorriso no rosto, ele me esperava. Não sei por que, mas seus olhos misteriosos me diziam algo... Ele se encantava tanto com minha presença ali quanto me encantava com suas histórias, palavras, presença.
Segurou minha mão e me levou até o quarto. As cortinas, hoje, estavam fechadas, haviam papeis sobre a cama, canetas sobre a escrivaninha. Ele me sentou em sua cama e sentou-se a meu lado. Sorriu mais uma vez para mim, deitou-se e recomeçou aquela história que tanto me encantava.
Ele não a tinha visto desde o dia anterior, quando ela saíra no meio da luta e se recolheu. Passou o dia treinando e sequer teve tempo de procurá-la, mas ficara mais atento a presença dela, de todos.
Ao final do dia, resolveu tomar um banho no rio, como uma forma de deixar seus pensamentos fluírem. Lá, quando ele estava de olhos fechados, apenas sentindo a água passar por seu corpo nu, sem se preocupar com qualquer outra coisa que não fosse o som da água batendo nas pedras mais a frente e em seu próprio corpo, sentiu o calor suave de outra pele tocando a sua. Era ela.
Dessa vez, ele não se deu ao trabalho de abrir os olhos, deixou que ela fizesse o que queria, mesmo que fosse tirar sua vida. Sentiu a mão leve dela passar em seus cabelos e descer pelo pescoço, até as costas. Percebeu que ela estava, então, na sua frente. Ainda sem abrir os olhos, levantou as mãos e passou em seus cabelos longos, roçou os dedos na pele macia de suas costas. Sentiu seu hálito quente perto do rosto.
Eu via os corpos se encontrando em baixo d'água, sentia a correnteza pressionando suas peles, o calor de seus corpos. Aqueles olhos misteriosos que me encantavam, agora me fitavam de forma inusitada. Ele já não estava mais deitado, mas sentado a meu lado. Suas mãos tocavam de leve meu cabelo curto, loiro e ondulado. Os lábios que contavam histórias extraordinárias a centímetros da minha pele, ainda descreviam a cena. Meu coração estava acelerado.
Eu já não ouvia mais a história, não apenas a sentia ou assistia, eu a vivia. Sentia, como eles, o desejo em meu corpo, a necessidade de acalentar e satisfazer. Senti seus lábios tocando minha pele, enquanto me contavam o desejo que movia aqueles corpos embaixo da água. Eles passavam das maçãs de meu rosto a meu pescoço com carinho e sensualidade, como os lábios dela percorriam o rosto daquele guerreiro.
As linhas dos desenhos no quarto nos envolveram e me tornei a própria história. Suas mãos macias percorriam cada linha do meu corpo com ternura e sem pressa alguma. Os beijos eram leves, em meus lábios, meu pescoço, às vezes na ponta de minha orelha. Eu mesma me despi e caminhei até o banheiro, ansiando pela água em meu corpo.
Ele veio um pouco depois, encontrou meu corpo quente debaixo da água mais fria, me conduzia com uma destreza, saciava meus desejos. Eles saíram do rio juntos, ele sempre sendo guiado por ela. Deitaram-se na grama quente.
Eu sentia os lençois esquentarem meu corpo. Ela ditava o ritmo. Aquele corpo sedutor e misterioso me possuia, me contentava e me exauria. E quando ficamos satisfeitos, ela se aconchegou em seu peito. Ele me abraçou.
Acordei sem saber o tempo que se passara, mas o tempo já não tinha importância para mim. Mesmo vendo um pouco de luz pelas cortinas, o que me indicava a presença do sol, a magia ainda era viva no quarto e eu ainda vivia aquela história. Esperei que ele acordasse, mesmo sendo parte da história, eu precisava ouvi-la.
Acordou calmo, mas algo passou pelos seus olhos quando me viu em seus braços. Com um suspiro e sem levantar-se, continuou.
Ao acordar com a luz do sol em seus olhos ele não a encontrou a seu lado. Passou, em seus pensamentos, que tudo aquilo fora um sonho. Mas era um sonho real demais. Então tentou imaginar o por que de tê-la tido em seus braços e tê-la perdido. Quando teria ela acordado, por que partira?
Passou o dia tentando achá-la, tentando descobrir o motivo de sua ausência, mas novamente não a encontrou. Desta vez não foi ao rio, voltou para casa. Esperava, de alguma forma, encontrá-la, mas nada e ninguém dava sinal de que algum dia ela houvesse existido.







Algumas semanas passaram-se assim, ele não ouviu sequer um rumor sobre ela. Chegou um ponto em ele não parava mais de pensar nela e não sabia se estava ficando louco, se tudo aquilo fora um sonho, ou se ela realmente existia e, por algum motivo completamente estranho, havia sumido. Depois de pensar sobre o que faria, resolveu seguir sua loucura e procurar por ela.  
Resolveu começar a procurar pela floresta próxima à aldeia em que morava, mesmo sendo um lugar improvável. Pegou sua capa mais grossa, sentia que o tempo não era favorável, de alguma forma sentia que aquela noite e os dias seguintes seriam frios. Levou uma a mais, por precaução, um pouco de água e algumas frutas, o resto ele poderia encontrar na mata. Saiu ao anoitecer. 
Ao adentrar na mata sua pele arrepiou. Sentiu medo, mas não desistiu de continuar. À medida que a noite se tornava mais escura e a mata mais densa, coisas estranhas passavam por sua mente e se tornava difícil concentrar-se. Tinha muito medo do que iria encontrar, ela fora a única que ele amara, tinha que cuidar dela.  
Durante o amanhecer do sétimo dia, ele encontrou uma caverna escondida atrás de plantas. Era estranha. Por dentro, toda feita de cristais em tons de rosa e azul, refletiam a luz de uma forma estranha e maravilhosa. Porém, o fundo da caverna era rústico, de pedra. No meio havia uma mulher de longos cabelos negros ondulados. Elegante, escura como a noite. Era ela. 
Nessa hora, ele me abraçou com força, como que me segurando, me protegendo, com medo de me perder. Ele correu até ela, ajoelhou-se a seu lado. Passou a mão em sua face e sentiu-a gelada, mas viva. Cobriu-a com sua capa, na tentativa de esquenta-la e faze-la acordar, mas não conseguiu. Ele então resolveu levá-la para casa e lá tentar acorda-la novamente. Após um tempo mais longo, já que tinha que carrega-la com cuidado, chegou em casa. Ele a acomoda em sua cama e busca pela casa algo que a ajude, sem saber o que fazer.  
Acha então um anel com uma safira. A pedra brilha, como que com alguma magia escondida. Ele coloca o anel em seu dedo mindinho e a pedra começa a escurecer. O calor volta aos poucos ao corpo dela enquanto a joia escurece cada vez mais. Ele então me abraça muito forte, quase me sufocando e diz, num suspiro rápido, cortante, que ela acorda. 
Ela acorda sem direção, perdida, desnorteada. Ele beija de leve seus lábios, quer saber o que houve. Ela fala frases cortadas, mas firmes, não tem mais medo. Explica com dificuldade que o mal estava atrás dele e ela se sacrificou para que não o atingisse. Ela sabia que ele iria procura-la. Seus olhos encheram-se de lágrimas. Os meus também. O céu também chorava, derramando gotas d’água que batiam na janela. Nossos lábios se tocaram e de olhos fechados senti que ele me esperara, sabendo que eu o procuraria. 
Todas as noites, a partir de então, ouço um pedaço de uma história, uma historia que espero não ter fim. Todos os dias, nós a vivemos. Juntos.