quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Pertencente às palavras

  Olhando as coisas tão miúdas, sentindo a brisa da manhã, vendo a expressão de uma pessoa, ouvindo a chuva bater na janela, os grilos cantando numa noite quente, o riso de alguém, ou a tristeza de outro, me vejo cada vez mais distante de mim mesma.
  Sentindo o abraço indiferente, as conversas alheias, o arrepio na pele, os sonhos, me vejo como se eu não estivesse ali.
  E cada segundo a mais, cada hora que envelhece essa minha humanidade me mostra como eu não vivi nada do que se tem para viver, que eu não fiz nada que eu queria viver. E a cada batida do coração, cada acorde de uma música, riso de uma criança, a cada respiração, sinto como se não pertencesse mais a esse lugar, a esse mundo.
  É como só saber voar, mas ter suas asas cortadas. Um objeto fora de lugar, uma peça que não se encaixa. Mas mesmo estando tão distante de um lar, é incrível olhar a vida por cima, com olhos de quem descobre. É uma sensação ao mesmo tempo magnífica e assustadora, olhar para cada página e ver seus detalhes ínfimos; sentir entre os dedos um pouco da poeira do passado e do relevo das coisas miúdas.
  Tão adorável ouvir o som do mar ou o quase silêncio de uma noite no mato. E tão infinitamente curioso sentir, ler, ouvir livros maravilhosos em cada pessoa, cada cantinho.
  E gentil. Gentil perceber que cada gesto simples é carregado de significado, que a brisa da manhã compensa estar ali, que um sorriso arruma o dia.
  No fim do dia, de uma semana, de uma década ou de um século, que seja um milênio, perceber então que as coisas não são tão distantes assim. Elas ficam e ficam por muito tempo.
  Talvez, e só talvez, nascendo aos poucos das palavras, elas podem voltar a ser o que eram ou ser o que jamais seriam e eu volte a pertencer a algum lugar.

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